Eleição no Benfica: Claridade nas Candidaturas e Desafios na Estrutura Associativa
Os sócios do Benfica que participarão na segunda volta das eleições para os Órgãos Sociais do clube, agendadas para o próximo sábado, não apresentam, até o momento, um número significativo de indecisos. É improvável que surjam novas dúvidas nos cinco dias que antecedem o ato eleitoral. As posições de Rui Costa, o atual presidente, e Noronha Lopes, seu concorrente, estão claramente definidas, e não há novos argumentos a serem apresentados. A única incerteza reside na quantidade de sócios que se farão ouvir, após a histórica participação na primeira volta.
Vale ressaltar que processos democráticos em grandes clubes europeus são raros, uma vez que a estrutura da maioria deles é baseada em acionistas que não perdem seus direitos de voto, podendo vendê-los conforme sua conveniência. Não é exagerado afirmar que esses clubes, ao perderem um pouco do romantismo e da legitimidade que advém da governança popular, conseguem, em contrapartida, uma estabilidade que permite a consolidação de projetos. Refiro-me, evidentemente, a investidores sérios (e existem também por aqui), e não a oportunistas que exploram os clubes, sugando seus recursos e depois os abandonando à própria sorte.
A estabilidade — que não deve ser confundida com inércia ou conivência com práticas inadequadas — é um ativo valioso nesse setor. Um exemplo disso é o tempo que foi dado a Alex Ferguson no Manchester United, mesmo sem vitórias durante seis anos, permitindo-lhe, posteriormente, conquistar tudo. Da mesma forma, Arsène Wenger teve duas décadas no Arsenal, e, mais recentemente, Arteta, Maresca e Ruben Amorim tiveram a oportunidade de desenvolver seus trabalhos.
No Benfica, que opera sob um modelo tradicional e conta com 160 mil sócios com direito a voto, dos quais 86 mil participaram na primeira volta das eleições, existem questões que, em minha opinião — e essa é apenas a minha perspectiva, que não pretendo impor como verdade absoluta — não fazem sentido. Uma delas diz respeito à discriminação positiva na atribuição de votos, que varia conforme a antiguidade dos sócios. Embora eu defenda essa abordagem, acredito que o peso dos votos deveria ser recalibrado, além das mudanças já realizadas na recente revisão estatutária.
É interessante notar que há um novo dado no Benfica que pode influenciar cada vez mais a vida associativa do clube: o surpreendentemente alto número de sócios entre 30 e 40 anos, que têm direito a 50 votos. Isso desafia a ideia de que os mais velhos, geralmente mais conservadores, dominavam as decisões.
A segunda questão diz respeito a uma aberração confirmada e reforçada na revisão estatutária, que concede a algumas centenas de sócios, devido a questões de militância ou localização, um poder desproporcional e até ofensivo para a maioria dos associados de um clube que, apesar de ter Lisboa no nome, há muito se tornou universal.