Crise e Desafios do Futebol Português: A Necessidade de Mudança

Crise e Desafios do Futebol Português: A Necessidade de Mudança

A atual dinâmica de trocas de palavras e comunicados no futebol nacional reflete claramente o rumo que estamos a seguir. Com a perda de posições no ranking da UEFA, é evidente que o pote milionário está acessível apenas a um ou dois clubes. Em vez de tentarmos reverter essa situação em conjunto, os nossos dirigentes parecem focar-se em garantir a sua presença na UEFA Champions League. Essa abordagem revela que estamos a viver acima das nossas possibilidades e que não temos a visão necessária para perceber que este não é o caminho correto.

Como muitos sabem, costumo dizer frequentemente que o futebol já não é apenas um desporto, mas sim uma indústria. Isso implica que tudo está sob avaliação; não basta ter um bom desempenho desportivo para alcançar o sucesso.

Atualmente, a forma como cada clube ou SAD gere os seus recursos é cada vez mais detalhada e crucial. As competências dos dirigentes precisam de ser mais abrangentes e adaptadas à evolução dos tempos. Também se estão a criar mecanismos para garantir que a transparência e a credibilidade sejam cada vez mais evidentes neste setor em constante transformação.

Dentro desse contexto, muitas práticas do passado já não são aceitáveis e não deveriam persistir. Infelizmente, em Portugal, o passado continua a dominar o presente.

Recentemente, tivemos mais um episódio que confirma essa realidade. Durante o intervalo do jogo entre FC Porto e SC Braga, o árbitro encontrou um televisor no balneário, transmitindo continuamente imagens de um lance da primeira parte, onde um golo do FC Porto foi anulado. Na perspectiva do FC Porto, esse lance, avaliado por Fábio Veríssimo, prejudicou o clube.

O que me parece alarmante é a prática e o modus operandi expostos por Fábio Veríssimo no relatório da partida. O que o FC Porto pretendia com tal comportamento? Essa atitude reflete ética, lealdade e respeito pelo adversário, árbitros e adeptos? A marca FC Porto sai valorizada desse episódio? Os parceiros e patrocinadores do FC Porto sentem-se satisfeitos com esses comportamentos? É assim que o FC Porto atua na UEFA?

De maneira geral, sou bastante crítico em relação à gestão desportiva. Com a chegada de uma nova geração de dirigentes, esperávamos mudanças positivas. Esperávamos consensos, visão e uma preocupação genuína com o desenvolvimento do futebol português. Desejávamos ética, fair-play e uma maior transparência no desporto.

No entanto, o que essa nova geração de dirigentes trouxe foi mais do mesmo: fanatismo, desresponsabilização (com a arbitragem a ser o bode expiatório), práticas ultrapassadas, ataques constantes entre clubes, intervenções para condicionar árbitros, promoção do ódio aos rivais e a personificação dos egos dos presidentes dos clubes. O foco parece estar mais em manter o poder do que em fazer o que é certo.

Realizam inúmeras reuniões na Liga e participam em galas da FPF para tentar convencer todos de que o futebol português está a evoluir e que estamos no caminho certo. Distribuem prêmios a quem tem maior relevância social e fazem discursos eloquentes. Promovem almoços e confraternizações, onde saem sorridentes, mas, assim que terminam, atacam-se mutuamente. Cada um pensa apenas em si.

Além disso, aqueles que deveriam chamar a atenção para o que se passa e para o mal que estão a fazer ao futebol português, como o presidente da FPF, parecem ausentes. Com tudo a arder, onde está o presidente da FPF? O que tem a dizer sobre tudo isso? Não deveria ser ele a expressar publicamente o seu desagrado por esse triste espetáculo que presenciamos semanalmente? Por que não aparece?

Em seis meses, Pedro Proença organizou duas galas para distribuir prêmios, sem deixar ninguém de fora. Promoveu um summit com um investimento elevado (qual foi o custo deste summit?) e passou a mensagem de que o futebol nacional está a evoluir. Após isso, desapareceu. Ninguém sabe onde está o presidente da FPF, que deveria ser o primeiro a condenar o que temos visto e ouvido recentemente. Por que não o faz?

Talvez porque sua posição dependa dos votos e das influências daqueles que deveriam criticar. Talvez porque esteja mais preocupado com sua carreira do que com a evolução do futebol português. Ou talvez porque, estrategicamente, prefira ser visto publicamente apenas em associações positivas, como a entrega de prêmios ou nas vitórias da Seleção, em vez de se envolver em temas que possam prejudicar sua imagem.

No desporto, faltam estadistas. Pessoas que realmente amem o futebol e entendam que sua missão não é alimentar seu ego, mas sim fazer o que é certo. Faltam líderes que coloquem o coletivo acima do individual. Faltam pessoas com visão que compreendam que, se continuarmos nesse caminho, todos seremos mais fracos.

Desportivamente, estamos a perder competitividade, a cair no ranking e a ter menos equipas nas competições europeias. Como consequência, financeiramente, teremos cada vez menos condições para competir com países que estão a dar passos certos e que possuem um poder de compra e um mercado interno muito maiores que os nossos. A maioria dos estádios continuará vazia, pois as pessoas perderão a motivação para ver futebol e serão educadas a apoiar clubes, e não o desporto em si. A nossa sorte é contar com treinadores e jogadores que continuam a colocar Portugal em destaque mundial pela sua qualidade, trabalho, dedicação e superação.

Minha desilusão com essa nova geração de dirigentes é ainda maior, especialmente considerando que três dos maiores líderes desportivos em Portugal (Rui Costa, Villas-Boas e Pedro Proença) vieram do desporto e conhecem bem os desafios enfrentados por dirigentes sem a mínima qualidade. Sua única missão deveria ser lutar contra essa realidade e fazer diferente, representando todos aqueles que desempenham hoje funções que eles mesmos ocuparam no passado, proporcionando um ambiente mais puro e condições mais favoráveis. O que vejo é que, em alguns casos, não só não o fizeram, como ainda conseguem ser mais maquiavélicos que seus antecessores.

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