Luís Filipe Vieira Apela à Memória e à Participação dos Sócios do Benfica

Luís Filipe Vieira Apela à Memória e à Participação dos Sócios do Benfica

Luís Filipe Vieira dirigiu-se novamente aos sócios do SL Benfica por meio de uma carta aberta, na qual avalia criticamente os quatro anos de gestão de Rui Costa. Ele recorda que, durante seu mandato, ninguém estava disposto a assumir a presidência e argumenta que é fácil agora apresentar uma candidatura. Vieira também destaca a importância de relembrar o momento em que decidiu bloquear a dispensa de Bernardo Silva.

“Caros Sócios,

Faltam pouco mais de um mês para as eleições mais concorridas da história do SL Benfica, um sinal de vitalidade, mas também de enorme preocupação com o futuro do clube. Estas eleições são decisivas e não é um exagero afirmar isso. Estamos numa fase de incerteza, onde a fragilidade financeira se alia à perda de ambição desportiva.

Os números apresentados pela SAD referentes ao último exercício, celebrados pela atual direção como um feito extraordinário, são, na verdade, preocupantes e um sinal de alerta para o futuro. Quem analisar as contas com atenção perceberá que a situação é alarmante: a dívida aumentou, os custos dispararam e o modelo de gestão atual não assegura a sustentabilidade.

Nos últimos quatro anos, a dívida cresceu mais do que o que perdemos no desporto. Gastámos como nunca, sem o retorno correspondente. É crucial que todos os Benfiquistas compreendam que este é o retrato atual do clube: uma fragilidade financeira disfarçada por resultados ocasionais que ocultam uma realidade estrutural. O cenário só não é pior porque o ano foi excepcional em termos de receitas; mesmo assim, em vez dos 80 milhões de lucro esperados, apresentamos pouco mais de 30.

Quando deixei a presidência, em 2021, a dívida total do clube era de 380 milhões de euros. Quatro anos depois, esse passivo aumentou para 475 milhões, o maior da história da SAD. A dívida líquida, que deixei em 101 milhões, saltou para 197 milhões de euros, apesar do aumento significativo das receitas. Isso significa que a dívida líquida aumentou em 96 milhões de euros, enquanto as receitas totais cresceram 156 milhões de euros. É fácil concluir que dificilmente seria possível fazer pior.

A dívida a fornecedores, que em 2021 era de 109 milhões, já alcança 202 milhões, um aumento de 93 milhões de euros. O Capital Próprio, que era de 144 milhões em 2021, caiu 27 milhões para 116 milhões de euros, reflexo de dois exercícios com prejuízo em apenas quatro anos de mandato.

As despesas em FSE eram de 46 milhões, e hoje atingem 78 milhões, apesar de um ajuste de aproximadamente 7 milhões de euros nas costas dos sócios, o que significa que o valor real deve ser próximo dos 85 milhões de euros. Os gastos com pessoal aumentaram 31 milhões de euros, o que representa um crescimento de 32% em quatro anos.

Os gastos com transações de direitos de atletas atingiram o recorde de 28 milhões, enquanto no meu último ano despendeu-se apenas 12 milhões. Para aqueles que afirmavam que anteriormente se gastava muito em comissões, a realidade é clara: os serviços de intermediação representam 8,6% das vendas brutas de direitos de atletas, contra apenas 5,5% em 2021. Mais uma vez, alguém está a enganar os sócios.

Os sócios que hoje têm entre 25 e 30 anos não têm memória do que era o SL Benfica há apenas duas décadas. Mesmo antes de ser eleito pela primeira vez para a presidência do clube, em 2003, encontrei uma instituição enfraquecida, sem dinheiro, sem credibilidade e sem rumo. Um clube destroçado, que todos olhavam com desconfiança.

Quantos dos que hoje se candidatam à presidência do Benfica teriam feito isso em 2003? É fácil falar hoje sobre a grandeza do Benfica e teorizar sobre como deve ser a gestão, mas em 2003 não vi ninguém animado para avançar, e sabem por quê? Porque as perspectivas eram muito sombrias e poucos acreditavam que era possível inverter a situação. Eu sempre acreditei e cumpri!

Com esforço, muito trabalho e enfrentando um sistema desportivo viciado, conseguimos devolver dignidade ao clube. Reconstruímos o futebol, investimos no Seixal, recuperamos património e conquistamos títulos, incluindo o Tri e o inesquecível Tetra. Inovamos constantemente, investimos no talento de nossos colaboradores e devolvemos ao Benfica o prestígio que estava perdido. Foi esse Benfica, sólido e respeitado, que deixei quando fui forçado a sair.

Hoje, diante da evidente degradação da saúde financeira e de uma gestão errática, hesitante e sem ambição, sinto que não posso permanecer à margem, alheado e em silêncio.

Quero ser claro: irei a votos, independentemente das regras que a atual direção queira impor. Porém, não posso deixar de ressaltar que o regulamento eleitoral proposto pela MAG parece ter sido desenhado para afastar deliberadamente milhares de sócios destas eleições, revelando o medo que esta direção tem de prestar contas.

O Benfica sempre foi e sempre será dos Benfiquistas. A força do nosso clube reside nos seus sócios e adeptos. Não podemos aceitar que as regras sejam manipuladas para limitar a democracia interna ou silenciar vozes críticas. Isso atenta contra a essência do Benfica: a liberdade e a participação dos seus sócios.

O Presidente da Assembleia Geral deveria ser um elemento agregador e isento, preocupado em garantir a mais ampla participação eleitoral, com regras claras e total transparência. Infelizmente, não é o caso! Fazer parte de uma das listas concorrentes é um direito que ele possui, mas transformar o clube em refém de regras eleitorais dúbias e pouco transparentes é algo que a história e a memória dos benfiquistas não lhe perdoarão.

Por isso, apelo à consciência de todos: o que está em jogo não é apenas o futuro de uma direção, mas o futuro do Benfica. Um Benfica democrático, forte, unido e vitorioso. O Benfica que construímos juntos e que temos o dever de proteger.

Permitam-me concluir com uma palavra sobre o possível regresso de Bernardo Silva. Ficarei feliz se isso acontecer, independentemente de quem seja o presidente. Quando Bernardo ainda era jogador da formação, houve um presidente que, contra a opinião de um treinador e de um diretor geral, impediu sua dispensa. Tenho orgulho de ter sido esse presidente. Também neste caso, é preciso ter memória!

No passado, assim como no futuro, devemos cuidar e promover nossa formação. Um treinador do SL Benfica – qualquer um – que queira ter voz no mercado deve aproveitar o que de melhor temos na nossa formação. Essa aposta na formação garante sustentabilidade desportiva e financeira, que nos distingue e deve ser o pilar do nosso futuro.

Com a mesma paixão de sempre,

Luís Filipe Vieira

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