Mjällby em Rumo ao Título Nacional: Uma História de Superação
No dia 20 de outubro de 2025, os 1.500 habitantes da vila piscatória sueca de Hällevik poderão celebrar e gritar: "Somos campeões!" Não se trata de uma divisão inferior ou de uma taça, mas sim do campeonato nacional da Suécia. Neste dia, o Mjällby enfrentará o renomado IFK Gotemburgo e, com uma vitória, poderá fazer história ao se tornar o clube da localidade menos povoada a conquistar o título nacional de uma nação da UEFA.
Por trás de cada grande equipe, há um líder, e o do Mjällby, Anders Torstensson, possui uma trajetória inspiradora que começou há mais de 40 anos. Situado a poucos metros do Mar Báltico, o pequeno estádio Strandvallen tem uma capacidade mais de quatro vezes superior à população da vila. Foi nesse cenário que um jovem Anders chegou, sonhando em se destacar como jogador. Após passar pela formação do clube, ele chegou à equipe principal, mas nunca chegou a jogar. Em 1985, abandonou o Mjällby.
O sonho de ser jogador não se concretizou, e Torstensson seguiu uma carreira militar durante 10 anos. Motivado a ensinar, tornou-se professor e começou a treinar equipes locais, um nível que não pretendia ultrapassar. Em entrevista ao The Guardian, ele comentou: "Nunca pensei em seguir a carreira de treinador".
A forte ligação com o Mjällby se renovou em 2007, quando foi nomeado treinador-adjunto. Naquela época, o clube enfrentava grandes dificuldades financeiras. "Estávamos na Allsvenskan [campeonato sueco], mas éramos um clube semiprofissional. A maioria dos jogadores tinha empregos paralelos, e treinávamos no final da tarde. Apenas eu e meu assistente éramos dedicados em tempo integral", relembra Torstensson.
Em 2013, ele teve a chance de ser o treinador principal, mas a experiência não foi satisfatória, levando-o a optar por continuar sua carreira como professor. Essa decisão se manteve até 2021, quando voltou ao Mjällby para ajudar o clube a se manter na Allsvenskan.
Em 2023, a situação mudou. O Mjällby o convidou novamente, e Torstensson hesitou. "Eu disse a eles que não tinha estado no futebol profissional desde 2013 e que tudo havia mudado. Eles responderam: 'É verdade, mas não nos importamos porque você ganha jogos'. Eu percebi que, se recusasse, minhas perspectivas no futebol acabariam. Eu amava meu trabalho, mas sentia que era agora ou nunca."
A jornada histórica do Mjällby não foi isenta de desafios. Um dos maiores para Torstensson foi o diagnóstico de leucemia linfocítica crônica em agosto do ano passado. "Dizem que não se morre por causa disso, mas que se morre com isso. Por enquanto, posso viver minha vida normalmente. Aceitei o diagnóstico e tentei deixá-lo no hospital. 24 horas após o diagnóstico, decidi que tinha a escolha entre seguir em frente ou me deixar levar pela tristeza. No final, tirei apenas uma semana de folga e continuei acompanhando a equipe. Depois, voltei a 100% e estou feliz", compartilha.
Ele ficará ainda mais feliz se, em 20 de outubro, conseguir repetir o feito de Claudio Ranieri, que levou o Leicester a conquistar o título em 2016, superando todas as expectativas.
Hasse Larsson, diretor esportivo do Mjällby, também desempenha um papel crucial no sucesso da equipe. Ele expressa seu espanto com a trajetória do clube: "Nunca poderia imaginar isso. Nunca estivemos nesta posição, mas aqui estamos. Somos uma equipe muito boa agora e temos uma grande oportunidade". Larsson, que também jogou pelo clube e foi capitão por nove anos, enfrentou desafios de saúde, superando um tumor no cérebro e um câncer de próstata. "Foi um período difícil, mas estava 100% decidido a voltar para minha família e para o futebol, as duas coisas que mais amo. Demorou algum tempo, mas sou assim, luto até o fim", conclui.
"Este clube sempre foi uma família", afirma Larsson, destacando o modesto estádio que o acolhe. "Quando as equipes chegam aqui de autocarro, passam por quintas e portos de pesca. Continuam até que não podem mais dirigir e encontram o nosso estádio."