O Elefante na Sala e a Polêmica do Futebol
Na casa da família Ferreira, havia um elefante na sala. Ele apareceu de forma inesperada, sem ser convidado, e logo se instalou. Cada movimento do animal fazia as paredes tremerem, e sua tromba causava danos frequentes. Apesar disso, a família ignorava sua presença.
A mãe precisava contornar a tromba para ir à cozinha, o filho se espremia no sofá para assistir televisão, e o pai tentava explicar aos vizinhos que os barulhos estranhos eram apenas um problema de encanamento. Feridas e hematomas eram comuns devido aos acidentes causados pelo elefante, mas o silêncio que se instalou entre eles era ainda mais preocupante. De alguma forma, a família concordou tacitamente que admitir a presença do elefante seria mais difícil do que simplesmente aceitá-lo.
Um dia, a avó chegou sem aviso e, chocada, exclamou: “Tem um elefante aqui!” Nesse momento, como se um feitiço tivesse sido quebrado, a mãe gritou que não aguentava mais, o filho chorou por ter reprimido o medo por tanto tempo, e o pai confessou seu susto. Naquela tarde, chamaram uma equipe para derrubar a parede da sala, e o elefante finalmente foi embora.
Eu, que sou Garcia e não Ferreira, recuso-me a conviver com elefantes na sala. Quero deixar claro que o pênalti marcado a favor do Sporting contra o Santa Clara não foi pênalti, nem aqui nem na China. Se aceitarmos que esse tipo de contato justifica o castigo máximo, em breve teremos um pênalti a cada escanteio — a menos que alguém decida que os jogadores devem jogar com as mãos amarradas.
O que aconteceu no jogo contra o Santa Clara foi lamentável por várias razões. A decisão final foi claramente um erro, mas o tempo perdido até chegar a essa conclusão foi igualmente frustrante. Mais de dez minutos de jogo parado para analisar uma jogada é algo próximo do absurdo. Se isso se tornar uma prática comum, nosso futebol estará em sérias dificuldades.
Uma interrupção desse tamanho não é apenas ruim para o espetáculo; o impacto nos jogadores é significativo. Dez minutos de inatividade podem reduzir a temperatura muscular, afetando a elasticidade, a velocidade de contração e a capacidade de gerar força. Quando o jogo recomeça, os atletas estão menos preparados fisicamente, aumentando o risco de lesões. Além disso, alterações cardiovasculares e neuromotoras também podem prejudicar o desempenho após longas paradas.
Como sportinguista, lamento o que ocorreu e reconheço que o futebol é o maior prejudicado em situações como esta. Já expressei minha opinião no Twitter e reitero: somos sportinguistas, mas não devemos ser cegos. É justo admitir que aquele pênalti e aquela interrupção foram inaceitáveis e que o Santa Clara, que sempre se esforça contra o Sporting, merecia passar à próxima fase.
Entretanto, as vozes de indignação surgiram rapidamente. Embora essa indignação seja compreensível, há um limite que foi claramente ultrapassado nos últimos dias. É quase risível ouvir torcedores de clubes envolvidos em escândalos como o Apito Dourado e o caso dos E-Mails afirmarem que este é o maior escândalo da arbitragem portuguesa. Lamento informar, mas isso não é um escândalo, embora possa ter sido um episódio controverso. Escândalo foi a corrupção que todos nós lembramos, que buscava manipular o desempenho dos árbitros.
Eu tenho memória. Lembro-me de certos pênaltis que ajudaram o Benfica a vencer um campeonato por uma diferença de apenas dois pontos em relação ao Sporting, enquanto os torcedores do Benfica celebravam com cachecóis que diziam “colinho”.
Reitero: não foi pênalti, foi um erro, e o Santa Clara fez mais para avançar na competição. Mas a histeria e os comunicados que se seguiram estão se tornando insuportáveis.
Recentemente, li um comentário de um sportinguista sobre a arbitragem de João Pinheiro que me fez sorrir. Ele afirmou que o Sporting ser beneficiado seria uma forma de reparação histórica e que ainda temos muito a compensar. Embora não concorde com essa visão, começo a entender essa perspectiva diante do drama criado em torno deste episódio, que beira a paranoia.
Para encerrar esta crônica de forma mais positiva, gostaria de lembrar um momento bonito que ocorreu no campo do Santa Clara, quando os jogadores do Arouca foram até a arquibancada cumprimentar o único torcedor arouquense presente em São Miguel para apoiar a equipe. Em meio a tantas polêmicas recentes, ver aquele torcedor solitário sendo acolhido pela equipe me fez perceber que, afinal, o futebol ainda pode ter seus momentos de beleza.