Reflexões sobre Maradona e a Evolução do VAR no Futebol
O primeiro Campeonato do Mundo que recordo com clareza é o México-1986, um torneio inesquecível repleto de memórias, especialmente por ser o Mundial de Diego Armando Maradona, considerado um momento em que Deus desceu à terra. Imagens que atravessam gerações, como a de El Pibe, no calor do Estádio Azteca, erguendo o punho diante do atônito Peter Shilton, na tarde de 22 de junho de 1986, permanecem gravadas na memória. A famosa 'mão de Deus' tornou-se um símbolo de genialidade e malícia, evocando as origens do gênio na Villa Fiorito, em um episódio envolto em um misticismo singular.
Na época, a seleção inglesa, comandada por Bobby Robson, relutava em acreditar em fenômenos sobrenaturais e utilizaria a expressão 'mão' para ilustrar mais um suposto roubo do século. Um erro grotesco que alterou o jogo e deixou uma marca indelével na competição, que a cada quatro anos nos convida a completar coleções de cromos com a mesma avidez da infância.
No dia 30 de outubro, Maradona celebraria seu 65.º aniversário. No dia anterior, durante o jogo entre Benfica e Tondela, válido pelas quartas de final da Taça da Liga, os encarnados viram um gol anulado por um milímetro de impedimento. Sem o VAR, a história daquele duelo foi escrita com a tinta da injustiça — a Inglaterra foi eliminada com a sensação de ter sido vítima de um erro que o mundo inteiro presenciou, exceto o árbitro tunisino Ali Bin Nasser.
Na Luz, com a utilização da videoarbitragem, prevaleceu a verdade desportiva. Se a tecnologia for confiável — e eu repito, se a tecnologia for confiável —, tudo o que é mensurável é indiscutível. Durante décadas, o desporto mais popular do planeta dependia do olhar humano de um quarteto de arbitragem incapaz de acompanhar a velocidade e complexidade do jogo. Quantas competições, títulos e carreiras não foram afetados por decisões erradas? Desde gols mal validados a impedimentos inexistentes, passando por pênaltis não assinalados e cartões indevidos, o futebol viveu refém de equívocos que, como no caso da mão de Deus, também contribuíram para romancear muitos momentos controversos.
A introdução do VAR — nos Mundiais a partir do Rússia-2018 e na Liga portuguesa desde a temporada 2017/18 — rompe com o passado, trazendo a tecnologia oficialmente para o campo para auxiliar o homem, e não para substituí-lo. Embora seja evidente que o sistema ainda está longe da perfeição, é inegável que, atualmente, o jogo é mais justo.
Imaginemos o VAR no México-1986. Uma revisão de poucos segundos teria sido suficiente para anular o gol irregular de Maradona. O que hoje é lembrado como um evento icônico seria, com o VAR, apenas uma nota de rodapé. É certo que perderíamos um pouco do encanto do jogo, mas ganharíamos algo mais importante — a integridade do resultado.
O futebol deve ser pautado pela precisão e transparência. O VAR não é o inimigo da paixão; é o seu guardião. A emoção não surge do erro, mas do gol que é marcado ou evitado. Um grito de gol só é puro quando é legítimo, mesmo que seja necessário esperar pela análise dos lances. E se, por vezes, o VAR demora mais do que gostaríamos ou gera debates intermináveis sobre linhas e ângulos, isso é parte do processo de aperfeiçoamento.
A mão de Deus permanecerá na memória como símbolo de uma era romântica e imperfeita. Contudo, é precisamente por conhecermos esses incidentes que o VAR se torna indispensável. A mão de Deus e o impedimento de um centímetro — a diferença entre a mentira e a verdade.