Reflexões sobre o Clássico: FC Porto e Benfica
No último domingo, o tão aguardado clássico entre FC Porto e Benfica teve lugar, gerando grande expectativa entre os adeptos. Estes jogos são sempre carregados de emoção, capazes de dividir o tempo em antes e depois. Pessoalmente, vivenciei uma mistura de sentimentos. Por um lado, havia a oportunidade de conquistar uma vitória no Dragão, encurtando distâncias no campeonato e elevando a confiança da equipe. Por outro, a percepção de que o momento não era o ideal. Um clássico exige frescura, energia e força mental e física, e sabíamos que isso seria um desafio.
Um jogo dessa magnitude raramente ocorre em um momento propício, e desta vez o calendário parecia particularmente cruel. Não houve tempo para recuperação, treino ou mesmo para respirar. O Benfica tem enfrentado um ciclo frenético, com jogos e viagens consecutivas, uma sequência desgastante que pode exaurir qualquer equipe. Este é o lado implacável do futebol moderno, que se adapta às exigências da televisão e aos interesses comerciais. O calendário não é mais elaborado para os jogadores, mas sim para atender a contratos milionários que garantem horários, audiências e patrocínios, com as grelhas televisivas a ditarem as regras.
É o paradoxo do futebol contemporâneo: nunca houve tanto dinheiro, mas também nunca houve tanto risco de perder a essência do jogo. Apesar de se falar muito sobre o cuidado com os atletas, a pressão sobre eles nunca foi tão intensa.
Embora não concordando com esse modelo, as regras estão estabelecidas e cabe aos responsáveis gerenciá-las com inteligência e frieza. José Mourinho fez exatamente isso. Não pretendo aqui realizar uma análise tática detalhada, já feita por outros, mas é importante destacar como o treinador compreendeu o estado da equipe. Mourinho, que conhece bem os meandros do futebol, percebeu que o Benfica não tinha pernas para buscar um jogo grandioso no Dragão. Ele optou por uma abordagem pragmática: um plano frio e calculado que garantisse equilíbrio e permitisse que a equipe saísse de um campo sempre hostil ainda de pé.
Foi exatamente isso que ocorreu. O Benfica resistiu quando necessário e soube sofrer quando a situação exigiu. Não foi um jogo brilhante, mas sim um jogo de sobrevivência. Às vezes, antes de vencer, é preciso sobreviver.
O jogo não será lembrado na história por gols memoráveis ou reviravoltas dramáticas, mas teve a marca de um treinador. A crítica poderá alegar que o Benfica poderia ter arriscado mais em busca da glória, mas quem acompanha o dia a dia entende que esse foi um momento em que a prudência foi a maior virtude. O maior risco teria sido não reconhecer as limitações do momento. Mourinho demonstrou experiência e frieza, e sua grande vitória não foi tática, mas estratégica: ele colocou a equipe a jogar de acordo com suas capacidades reais, e não com as expectativas dos adeptos.
Outro aspecto do clássico é a emoção dos adeptos. O coração do torcedor sempre clama por mais: pela vitória, pelo gol que nos faz levantar da cadeira. Contudo, o coração sozinho não ganha campeonatos; é preciso também racionalidade. E foi isso que Mourinho trouxe: uma mente fria, capaz de adaptar-se ao que o jogo oferecia, sem perder de vista o essencial.
Um empate nunca terá o sabor de uma vitória, e no Benfica não se celebram empates. Não falo de celebração, mas de sobrevivência. Sobreviver a um ciclo de jogos intenso. Este clássico foi diferente: menos épico, menos apaixonante, mas não menos importante.
Talvez seja aqui que se perceba o que Mourinho acrescenta ao Benfica. Com ele, o clube ganhou não apenas um treinador, mas um estrategista que entende que cada jogo tem seu tempo, que nem sempre se pode jogar de forma ofensiva, e que às vezes é preciso esperar. Mourinho trouxe intensidade, mas também cálculo; trouxe paixão, mas também racionalidade. Esse equilíbrio pode ser a chave para o futuro.
Porque o campeonato não se decide em um único jogo, mas sim em uma maratona. E nesta maratona, o Benfica mostrou no Dragão que sabe correr devagar quando necessário, que sabe gerir forças e que sabe sobreviver. Às vezes, sobreviver é o primeiro passo para vencer.
Para concluir esta crônica, gostaria de mencionar a última Assembleia Geral do Benfica. Essas reuniões sempre foram um espaço de paixão, mas quando essa paixão carece de espírito democrático, rapidamente se transforma em ruído. O ocorrido na última sessão é um exemplo disso.
Uma Assembleia Geral não deve ser confundida com um comício eleitoral. Ela é um espaço para discutir contas, regulamentos, estatutos e o futuro do Benfica. Misturar isso com a campanha eleitoral foi um erro que prejudica a imagem do clube e alimenta divisões.
Os candidatos à presidência, mais do que ninguém, devem dar o exemplo nesses momentos. Eles aspiram a liderar o clube e, portanto, devem demonstrar responsabilidade, contenção e respeito. Embora a campanha eleitoral possa ser propensa a discursos inflamados, é precisamente nesse contexto que se deve mostrar a frieza que distingue verdadeiros líderes.