Reflexões sobre o Jogo do Sporting e o Impacto do VAR
No último sábado, após uma tarde chuvosa em um torneio de futebol, cheguei em casa, tomei um banho quente e me acomodei no sofá para assistir ao jogo entre Estoril e Sporting. Com o jantar pronto, estava certa de que teria uma das minhas noites preferidas: chuva lá fora, casa tranquila e o Sporting na televisão. Contudo, percebi rapidamente que a noite não corresponderia às minhas expectativas.
Na primeira parte, mantive a calma – e sim, ainda mantenho o acento na palavra “estóica”, assim como em “jóia”, pois recuso-me a ceder às normas do Acordo Ortográfico. Porém, após o intervalo, comecei a sentir um peso nas pálpebras que se tornava difícil de suportar. Embora pudesse atribuir essa sonolência ao final da minha gravidez, a verdade é que o Sporting esteve tão apático e sem garra que o jogo se tornou, perdão pela expressão, absurdamente entediante.
Tivemos mais posse de bola? Sim. Conseguimos nos colocar em vantagem no início do jogo? Conseguimos – e isso foi a nossa sorte! No entanto, faltou o brilho e a ousadia que a equipe nos acostumou a ver. O que se viu no sábado foi uma falta de inspiração que contagiou quem assistia, e, pela primeira vez em anos, adormeci durante um jogo. O pior é que, mesmo lutando contra o sono, só acordei de fato ao ouvir a conferência de imprensa de Rui Borges, que se destacou ao falar tanto para a equipe quanto para o público.
Rui Borges foi direto ao abordar a apatia da equipe e alertou que esse jogo deve ser a exceção, não a regra. Ele criticou os passes errados e a escassez de oportunidades, afirmando que, se precisar, mudará nove ou dez jogadores sem hesitar. Reconheço que todos temos dias ruins e desinspirados, mas o que vimos no sábado foi uma equipe inteira dominada pela apatia. O que posso pedir é que, no próximo jogo contra o Nápoles, esqueçamos completamente o que fomos contra o Estoril.
Não posso encerrar o assunto Estoril sem mencionar os lances polêmicos. Eles existiram. Contudo, confesso que estou em um ponto em que não sei bem o que pensar. Enquanto analistas afirmam com segurança que deveria ter sido marcado um impedimento de Pedro Gonçalves, outros defendem que ele, ao não se mover, não interferiu na jogada. Não negando a polêmica, não consigo me posicionar em nenhum dos lados. O que sei, de fato, é que é inaceitável comparar essa situação com o gol anulado a Di María em fevereiro de 2024, pois, nesse caso, Tengstedt estava na trajetória da bola no momento do chute, impactando a visão do goleiro. No gol de Suárez, o goleiro do Estoril viu claramente a bola partir do pé do atacante em direção ao poste esquerdo da sua baliza.
Às vezes, confesso que sinto saudades de um tempo em que o futebol era diferente, quando não perdíamos semanas ouvindo comentários sobre centímetros, micro movimentos e ângulos. Sinto uma certa nostalgia por um tempo em que debatíamos com mais paixão e menos argumentos matemáticos e racionais. E, embora o Sporting tenha sido um dos grandes defensores da introdução do VAR na Liga Portuguesa, e desde 2017/18 tenhamos sido mais felizes em termos de resultados, não posso deixar de sentir que, com mais razão do que paixão, estamos matando um pouco do futebol que nos presenteou com a famosa “mão de Dios” no Mundial de 1986 e outras histórias que se tornaram lendas.
Gols anulados por impedimentos medidos com réguas e microscópios, após terem sido celebrados por um estádio inteiro, são simplesmente a coisa mais anticlimática do mundo. Jogos parados por minutos para analisarmos jogadas desde o início em busca de uma agulha no palheiro… Isso, às vezes, me irrita.
Reconheço a luta por trás do VAR e, nesse aspecto, devemos muito a Bruno de Carvalho. O tempo e os campeonatos conquistados deram razão a ele quando afirmava que uma maior verdade desportiva beneficiaria o Sporting. E, sim, ainda me estremeço ao recordar episódios como o gol de Ronny com a mão, que nos tirou o campeonato em 2007. Mas há sempre um “mas”. O que é bom também pode ter seu lado negativo e não há beleza sem imperfeição. O VAR foi benéfico para o Sporting, mas matou uma parte do jogo que eu apreciava e, quando nos vejo discutindo milímetros, às vezes, sinto saudades.
Desabafo feito e, acima de tudo, assumindo minha própria incoerência – o VAR é bom, mas não gosto do VAR – só espero que, no jogo de amanhã, a equipe nos mostre que o que vimos no sábado, contra o Estoril, foi uma exceção e que valerá a pena mantermos os olhos abertos a cada minuto dos jogos até o final da temporada.