A História de Juan Bernabé e a Águia do Benfica
Juan Bernabé é uma figura emblemática na história do Benfica. Ele foi o responsável por fazer a águia, símbolo do clube português, voar pela primeira vez no Estádio da Luz.
— Como chegou ao Benfica?
Juan conta que tudo começou no aeroporto de Faro, onde trabalhava como falcoeiro. “As pessoas me viam e diziam: ‘Olha a águia do Benfica!’ Eu não entendia muito de português até que um amigo me explicou o significado da águia para o clube. Ele também me contou que o treinador na época era o espanhol Camacho e que em poucas semanas o novo Estádio da Luz seria inaugurado. Pensei em como seria bonito se minha águia pudesse voar nessa festa tão importante.”
— E então decidiu passar à ação…
“Claro, tinha que fazer isso. Liguei para o clube e fui atendido por Rosário, a secretária da direção. Ela me informou que o Benfica já tinha uma águia. Expliquei que o que tinham era um milhafre de um adepto. Insisti e consegui que a ligação fosse transferida para Luís Seara Cardoso, do departamento de marketing. Ele adorou a ideia e me convidou para ir a Lisboa discutir o assunto.”
Juan recorda que, ao chegar, estava todo sujo devido à lama ao redor do estádio, mas todos estavam muito interessados na sua proposta. “Instalaram-me em um hotel e tentaram me proporcionar os meios para treinar, mas era complicado, pois faltavam apenas duas semanas e o relvado estava cheio de gente preparando a inauguração. Trabalhei com a águia como pude. Quando faltavam cinco dias, fizemos o ensaio geral, que não correu bem. A águia abortou a aterragem, e fiquei devastado. Pedi uma nova oportunidade, e no segundo voo, a águia aterrissou perfeitamente. Então disseram: ‘Vamos em frente e que Deus ajude’.”
— E como correu a inauguração?
“Começou mal. Eu não tinha acreditação e o porteiro não me deixava entrar. Estava desesperado vendo o tempo passar. Felizmente, um dirigente do Benfica me reconheceu e resolveu a situação. Quando estava no relvado para o voo, o técnico de luminotecnia decidiu reduzir a intensidade da luz para criar um ambiente mais solene. Fiquei em pânico, mas a águia levantou voo e aterrissou perfeitamente. Foi um momento incrível, emocionante, com lágrimas nos olhos de todos, incluindo Camacho. Aqueles presentes nunca esquecerão o que presenciaram; foi espetacular. Nunca vi tanta paixão por um clube como a que os adeptos do Benfica demonstraram.”
— Isso foi só o começo…
“Eu e a Vitória vivemos anos de glória. Visitamos hospitais e instituições, mostrando solidariedade a quem sofria. Recordo uma reportagem emocionante que A BOLA fez com Ana Rita Semedo, uma menina com um grave problema na coluna. Liguei para ajudar e consegui que ela fosse tratada em Londres três vezes. Esses anos também me permitiram conhecer todo o maravilhoso país que é Portugal. Fui a Aveiro, onde fui recebido pelo presidente da câmara e uma banda de música. Um momento inesquecível foi quando o presidente da UEFA me deu uma medalha de ouro, dizendo que o que eu fazia era o mais incrível que já tinha visto em um estádio. Durante jogos da Champions League, todas as personalidades VIP queriam me conhecer e parabenizar. O jogo que mais recordo foi contra o Porto, onde fui à zona dos adeptos adversários e sofri algumas provocações, mas vencemos, que era o mais importante.”
— Mas tudo tem um fim, e o seu no Benfica também chegou…
“A vida é como um rebanho de ovelhas; se não te destacas, os lobos não te atacam. Mas se tens sucesso, como eu tive, os inimigos e a inveja aparecem. Comecei a trabalhar com Silva Cardoso e Mário Dias, com quem me entendia bem. Eles fizeram um contrato verbal que me permitia ter patrocinadores e fazer publicidade. Criei um império mediático com a águia e ganhava bem. Quando eles saíram, fiquei à deriva. Os novos opuseram-se a isso, queriam tudo para si. As coisas pioraram até que tive um desentendimento com o novo chefe de segurança, que não gostava de espanhóis. Em um jogo, ele tentou me impedir de entrar no estádio pelo túnel que sempre usei. Não me controlei e acabei agredindo-o. Isso acabou com tudo. Fui acusado de difamação e agressão, e a pena foi de 800 euros a pagar aos três denunciantes. Saí do Benfica com muita pena; foram anos magníficos. Prefiro lembrar as coisas boas, que foram muitas e que nunca esquecerei.”
— O Benfica pagava-lhe um ordenado?
“Sim. Tenho uma carta de Luís Filipe Vieira agradecendo o que fiz pelo Benfica e oferecendo um contrato de 10 mil euros por mês. Parece muito, mas não se pode esquecer que eu fiz com que, pela primeira vez no mundo, uma águia voasse dentro de um estádio. A ideia foi minha e teve um grande valor.”
— No Benfica conheceu vários treinadores. Como eram?
“Tive a honra de trabalhar com José Antonio Camacho, Giovanni Trapattoni, Quique Flores, Ronald Koeman e Jorge Jesus. Todos eram pessoas boas e grandes treinadores. O que aprendi é que o mais importante no futebol não são as táticas, mas o ambiente no vestiário. O sucesso dos treinadores está em erradicar invejas e intrigas, criando um ambiente familiar e respeitoso. Trapattoni e Jesus conseguiram isso e ajudaram a conquistar títulos. Trabalhar com Rui Costa foi um prazer; conheci-o quando ainda era jogador, e na sua apresentação, com 30 mil adeptos, fiz a águia voar.”