Benfica: A Necessidade de um Rumo Claro

Benfica: A Necessidade de um Rumo Claro

Antes de qualquer jogador, do mercado ou do treinador, seja Mourinho, Lage, Schmidt ou Jesus, é fundamental estabelecer uma ideia e um rumo, definidos por quem lidera o clube.

O Benfica tem feito investimentos significativos e também vendido muitos jogadores. A busca por opções boas e baratas é cada vez mais desafiadora, especialmente com os grandes clubes eliminando intermediários e se tornando eles próprios caçadores de talentos. Embora tenha obtido alguns sucessos, o atual plantel, embora não fraco, apresenta desequilíbrios.

É importante ressaltar que não se pode responsabilizar os jogadores por algo que não conseguem oferecer, ou esperar que eles entreguem o que os treinadores não conseguem extrair deles. Contudo, tudo começa no topo da hierarquia.

No Estádio da Luz, não há um governo efetivo. Existe quem assine documentos, mas a gaveta das decisões difíceis está cheia, e a rotina se resume ao que é colocado na mesa. É preciso que o presidente do clube defina um rumo claro, respondendo à pergunta: que identidade eu quero que a minha equipe tenha nos próximos cinco a dez anos? A resposta não pode ser uma frase feita, como “um Benfica vencedor”.

Que tipo de equipe representa verdadeiramente os ideais do Benfica? A equipe deve se adaptar ao adversário ou fazer com que o adversário se adapte a ela? Será uma equipe que joga de forma ofensiva, dominando a posse de bola e enfrentando os grandes clubes europeus? Ou uma equipe organizada defensivamente, apostando em transições rápidas para o ataque? É a partir dessas perguntas que se deve avançar na escolha do treinador e dos jogadores.

Rui Costa acolheu a sugestão de Roger Schmidt e se comprometeu com essa visão, mas não o suficiente para enfrentar a crise quando as saídas de Enzo, Gonçalo Ramos, João Neves e outros deixaram o time fragilizado. Schmidt foi demitido no início da temporada, com o mercado fechado, e Lage assumiu com uma abordagem diferente. No entanto, a transição é um desafio constante, especialmente em um contexto onde o espaço já é escasso. Mourinho, por sua vez, mantém o perfil, mas será que houve ganhos com essa troca? Vamos analisar os problemas.

A formação de jogadores deve ser uma prioridade. Schmidt observou potencial em Florentino e Gonçalo Ramos, acreditou em António Silva e reconheceu o valor de João Neves. A única conquista de Lage, anos depois, continua sendo a de João Félix, enquanto Mourinho parece preferir jogadores experientes e a fisicalidade, que o atual grupo não possui, abrindo espaço para o mercado de janeiro. O rumo, se é que foi estabelecido, durou apenas seis meses sob a gestão de Schmidt, e o que se manteve foi graças a ele. Lage se tornou um bombeiro pela segunda vez até ser demitido fora de hora, e Mourinho chegou para apagar dois incêndios: o do desempenho em campo e o que ameaçava as eleições.

As fragilidades do plantel são evidentes. O maior investimento da história, devido a alguns negócios acima do valor real, não resolveu todos os problemas. Sem a bola, o eixo defensivo é lento, especialmente na ausência de Tomás Araújo, e erros individuais se acumulam entre António Silva e Otamendi. Com a bola, o time enfrenta dificuldades na construção inicial quando pressionado, resistência na transição do meio-campo para frente, um ataque previsível e incapaz de criar oportunidades, falta de jogadores habilidosos para o 1x1 e escassez de largura no ataque.

Os encarnados não alteraram o eixo defensivo e renovaram com o capitão. Adicionaram Dedic e forçaram Dahl a atuar como lateral. A saída de Carreras, essencial na transição, ainda não foi compensada. Embora Enzo e Ríos fizessem sentido para ajudar na resistência à pressão, isso reforçava a ideia de um Benfica veloz em transições, enquanto se perdia Florentino e seus desarmes. Ivanovic chegou como opção a Pavlidis, Lukebakio se destacou como principal desequilibrador e Sudakov como o criativo do time.

Faltaram as perguntas certas. Se Pavlidis continua sendo o 9, será Ivanovic o nome certo para apoiar ou partir da esquerda? Se Dedic e Bah são profundos pelo flanco, Lukebakio é o extremo ideal, assumindo sempre a definição, mas não ajudando na defesa? E não faria mais sentido colocá-lo na esquerda, mesmo que perdesse a diagonal para o remate, para oferecer a largura que Dahl e Aursnes não conseguem? Como se acreditou que um único jogador, mesmo sendo Sudakov, resolveria o problema coletivo do ataque posicional? Reitero: como o Benfica quer jogar? Qual é o rumo?

Um rumo claro teria evitado a contratação de Lage ou de Mourinho. E, falando dele, talvez seja hora de enriquecer o processo, indo além de simplesmente colocar a bola em Lukebakio, algo que Lage já fazia com Akturkoglu, por quem Mourinho agora demonstra interesse. Enquanto o Benfica continuar a escolher treinadores sem saber o que deseja ser, continuará a trocar bombeiros sem apagar o incêndio que realmente o ameaça.

Topics

Related news