Consequências dos Erros de Arbitragem no Futebol Português
As ideias neoliberais têm uma longa história de influência nos poderes do futebol. A mentalidade predominante entre muitos dirigentes é clara: "Se não serve, despede-se e vem outro!" Essa prática comum de dispensar treinadores ou considerar jogadores como dispensáveis, seja transferindo-os para equipas B ou isolando-os para treinos individuais, é amplamente aceita. Mas e os árbitros, qual é a situação deles?
A resposta, refletindo o pensamento dos dirigentes de clubes, é direta: se um árbitro não agrada, ele não deve ser considerado para apitar os jogos da equipe. A solução seria simples, como nos Estados Unidos, onde se poderia dizer ao árbitro, após um erro irreparável: "Sr. árbitro, está despedido!" Contudo, nem o nosso sistema laboral permite poderes ilimitados aos proprietários, nem estamos nos Estados Unidos. Porém, engana-se quem pensa que os árbitros estão isentos de consequências.
Vamos analisar as sanções a que estão sujeitos os árbitros que cometem erros, independentemente da sua gravidade. Um exemplo recente ocorreu nos Açores, durante um jogo da Taça entre Santa Clara e Sporting, onde houve uma controvérsia sobre a marcação de um penálti após 12 minutos de análise VAR. O ex-árbitro e atual diretor técnico nacional de arbitragem, Duarte Gomes, classificou a decisão como "errada" e afirmou que se tratava de "um exemplo que não queremos ver repetido."
Os níveis de punição para os árbitros variam. Inicialmente, as notas atribuídas pelos observadores são cruciais: um erro grave (um "erro de direito" ou técnico que impacte diretamente o resultado e que não seja corrigido pelo VAR) resulta em uma nota negativa, geralmente abaixo de 2.5. Essas notas acumulam-se para o ranking final da temporada, e os árbitros que terminam nas últimas posições podem ser rebaixados de categoria (por exemplo, da C1 para a C2), o que implica na perda do direito de apitar na I Liga e do status de profissional. Além disso, um árbitro pode também perder o status de Internacional.
Outro tipo de punição é a famosa "jarra". Embora não seja anunciada publicamente, o árbitro pode ficar ausente das nomeações durante 2, 3 semanas ou mais. Essa prática visa protegê-lo da pressão da mídia, mas funciona também como uma sanção disciplinar implícita.
Adicionalmente, os árbitros enfrentam a indesejada perda financeira. Os árbitros de elite em Portugal recebem um salário fixo mensal, mas uma parte significativa de sua renda provém dos prémios de jogo. Se forem colocados na "jarra" ou apenas designados como 4.º árbitro ou para a Liga 2, seus rendimentos diminuem drasticamente.
Por fim, em casos de erros recorrentes ou má interpretação do protocolo VAR, o árbitro pode ser convocado para sessões de formação técnica adicional na Cidade do Futebol, o que o afastará dos jogos e resultará em perda de rendimentos.
Portanto, os erros têm consequências significativas para os árbitros: impactam financeiramente (prémios de jogo), afetam seu prestígio (ranking e status internacional) e podem até levar à perda do emprego (rebaixamento). Resta saber se esses processos são eficazes.