João Almeida Prepara-se para a Volta a Espanha 2023
João Almeida está a apenas três dias de iniciar sua quarta participação consecutiva na Volta a Espanha, uma corrida que celebra seu 90.º aniversário com a partida marcada para Turim, Itália, no próximo sábado. O corredor português divide a liderança da equipe UAE Emirates com o espanhol Juan Ayuso e é um dos principais favoritos da Vuelta, com aspirações legítimas de conquistar um lugar entre os primeiros da classificação geral.
Após uma primeira metade da temporada bastante bem-sucedida, com vitórias em três provas de etapas do WorldTour — as Voltas ao País Basco, à Romandia e à Suíça —, Almeida enfrentou uma frustração ao abandonar o Tour de França durante a 9.ª etapa, devido a uma fratura de costela resultante de uma queda grave ocorrida duas etapas antes. O corredor, conhecido como Bota Lume, que adotou um lema de combate nas estradas desde o início de sua carreira, compartilha nesta entrevista exclusiva com A BOLA como pretende enfrentar o maior desafio de sua temporada.
“Minha melhor colocação, a quarta, na classificação geral em 2022, na minha estreia na Vuelta, parece distante, considerando tudo que aconteceu na minha carreira desde então. Agora, três anos depois, e após várias tentativas de chegar ao pódio, quais são suas expectativas para esta edição da prova?”
“É um pouco a mesma história. Infelizmente, precisei abandonar o Tour devido à queda, o que limitou muito minha preparação para a Vuelta. Basicamente, treinei apenas duas semanas, um pouco mais, a 100%, sem limitações. Mesmo assim, sinto que estou em um bom nível físico. Darei o meu melhor e vamos ver como termino...”
“Parece que você está com um otimismo mais moderado do que o habitual. Você parecia mais confiante antes do Tour, onde a concorrência seria mais forte e exigente.”
“Isso se deve à diferença na preparação, que foi melhor para o Tour, sem imprevistos e quedas. Estou otimista para a Vuelta, mas precisamos manter os pés no chão. Treinei apenas duas semanas e meia sem limitações após a queda... é pouco. É claro que tenho uma temporada de experiências, mas uma pausa de dez dias, sem treinar, sem bicicleta, sem fazer nada, afeta o corpo. No entanto, estou em boa forma, sinto-me bem na bicicleta. Espero melhorar ao longo da competição, semana a semana. Acredito que podemos ser otimistas, mas sempre com os pés no chão e focados no que é importante: a corrida. E poupar-me ao máximo.”
“Poupar-se ao máximo?”
“Exatamente, na corrida, a ideia é poupar ao máximo...”
“Você mencionou que a preparação não correu como esperado. Quantos dias você ficou completamente parado antes de começar a treinar novamente?”
“Na verdade, a recuperação da fratura correu muito bem. Mas a preparação foi curta, certo? Fiquei 10 ou 11 dias sem tocar na bicicleta, em repouso total. Depois, comecei a andar um pouco, mas nada de especial. Em termos de treino efetivo, foram duas semanas e meia. Senti-me bem e acho que estou em um bom estado, mas claramente não é uma preparação longa e sólida. Estou confiante, mas o desafio é grande. Serão três semanas em alto nível, contra Jonas Vingegaard, que está em ótima forma. Temos que ser cautelosos na abordagem à corrida. Mas vou à Vuelta com confiança e sinto que estou bem.”
“Afinal, a equipe apostou em você como líder ou colíder porque confiam em suas capacidades, correto? Apesar da confiança moderada, a meta é a classificação geral.”
“Sim, exato. Já temos uma relação com os dirigentes da UAE Emirates há alguns anos. Todos nos conhecemos e eles conhecem nosso valor. Também demonstrei minha consistência e forma física ao longo dos anos, e isso me torna uma garantia. Por isso, acredito que podemos começar esta Vuelta confiantes, cientes de que nem tudo pode sair como planejado. Vou lutar, sem medo.”
“Como você avaliaria, em termos percentuais, seu nível de forma física e mental antes do início da Vuelta, em comparação com outras corridas desta temporada?”
“Diria que estou cerca de 90%. A forma está boa, mas não me sinto no meu melhor. No entanto, temos três semanas, e o tempo nos permite chegar a 100%, certo? É uma corrida longa, e acabamos evoluindo ao longo da competição, dia após dia, semana após semana. Quando começamos com uma boa forma física, tendemos a melhorar. Às vezes, começamos no limite e acabamos cansados. É importante saber gerenciar isso e poupar ao máximo nos dias em que for possível.”
“Mas a Vuelta começa intensa, e haverá poucos dias para poupar ou recuperar, certo?”
“Sim, a Vuelta é sempre uma corrida muito explosiva e dura. Não há muitas etapas planas para os sprinters, é uma mistura total. Temos dez chegadas em alto, espalhadas pelas três semanas. Essas etapas podem trazer surpresas. Portanto, é um desafio diário. A Vuelta é sempre assim, é uma corrida especial. Eu gosto da Vuelta.”
“A Visma-Lease a Bike e Jonas Vingegaard vêm com tudo, com uma super equipe. É quase a versão A ponto 2 do Tour. Eles têm grande ambição. Depois de vencer o Tour, Vingegaard parece determinado a não facilitar na Vuelta. Como vocês na UAE Emirates estão encarando essa concorrência?”
“Sim, ele [Vingegaard] traz uma equipe muito forte para todos os terrenos. Todos esperavam isso. Mas isso acaba me favorecendo. Com uma equipe forte, eles vão querer assumir a corrida e torná-la mais dura, e isso é algo que me beneficia. Por outro lado, temos uma equipe igualmente forte, quase tão boa quanto a deles. Nossos corredores confiam em mim e sabem do meu valor. Portanto, a presença de Vingegaard e de uma Visma forte só me ajuda e torna a corrida mais desafiadora e controlada.”
“Você confia plenamente em sua equipe?”
“Sim, exatamente. Levo corredores que me acompanharam em muitas corridas este ano, com os quais ganhei. Conheço-os há muitos anos. Portanto, temos uma equipe coesa, que trabalha muito bem. Estarei sempre bem acompanhado em todos os dias, com certeza.”
“Você acredita que a coliderança com Juan Ayuso funcionará bem?”
“Sim, nos damos bem. Já tivemos alguns pequenos desentendimentos no passado, mas resolvemos tudo no momento. É natural que isso aconteça, mas, no geral, nos entendemos e estamos focados em ter sucesso como equipe, em ganhar etapas e tentar vencer a Vuelta. Acredito que tudo correrá bem.”