O Amor à Cultura Portuguesa na Riviera Francesa

O Amor à Cultura Portuguesa na Riviera Francesa

NICE — A mais de 1.500 quilómetros de Portugal, o amor pela Riviera Francesa é evidente, mas as raízes portuguesas permanecem fortes e intensas. Um calor tropical e um letreiro pintado em verde e vermelho anunciam um verdadeiro oásis de cultura portuguesa. Ao abrir a porta da mercearia, a expectativa se confirma; somos imediatamente transportados para uma época em que as mercearias eram o coração das comunidades, sem a concorrência das grandes superfícies comerciais.

Dentro de um espaço pequeno, mas repleto de histórias e saudade, encontramos Fábio e Sofia Tavares, proprietários da mercearia Casa Portuguesa, que se estabeleceram em Nice em 2017. Deixaram Portugal atrás de si, impulsionados por um espírito aventureiro. "Não estávamos mal financeiramente, tinha uma boa profissão, mas sempre fomos aventureiros. Viemos passar férias, gostámos daqui e ficámos um ano de cada vez", conta Fábio, natural de Oliveira de Azeméis, enquanto observa com carinho a filha, já nascida na França.

A conversa com Fábio, de 37 anos, é animada pela entrada de clientes portugueses, cabo-verdianos e franceses. O movimento na mercearia é intenso, com prateleiras repletas de produtos típicos como cereais, conservas, vinho e até lençóis, todos de origem portuguesa. "Clientes não faltam. Temos uma grande comunidade lusófona. Eles vêm fazer as suas compras, aproveitam para beber uma cerveja e saborear um petisco", explica Fábio, orgulhoso do sucesso da mercearia, que preenche a lacuna da "cultura de café" na França.

Fábio também menciona que os cafés na região fecham mais cedo, o que é um contraste com os hábitos portugueses. "Mas é agradável viver aqui. Temos bom tempo, montanha no inverno e praia no verão", compartilha. O regresso a Portugal não está nos planos imediatos, especialmente com a modernização da mercearia e a gravidez de Sofia, que está a caminho do quarto mês. Natural de Coimbra, Sofia destaca a facilidade de adaptação: "Estamos no país deles, temos de respeitar. A minha filha nasceu em França, mas é portuguesa. Estamos a ajudar a comunidade a crescer."

Hoje, no entanto, a Casa Portuguesa não será o ponto de encontro habitual da comunidade portuguesa no norte da cidade. Fábio contornou a proibição de venda de bilhetes para adeptos do Benfica, através de um convite de um cliente que é pai de um jogador do time anfitrião. Ele lamenta a perda de uma oportunidade única para uma invasão benfiquista à Riviera Francesa: "Foi ingrato e chato. Temos muitos benfiquistas aqui, muita gente de Lisboa e do Sul. Nem podemos levar adereços para o estádio."

Fábio relembra os jogos da temporada passada contra o Mónaco, onde havia mais benfiquistas do que monegascos: "Qualquer clube que venha mexe com a comunidade. Sentimos uma afinidade muito grande, como se fosse família. Há muito respeito, gostamos de usar o emblema do nosso clube", conta, orgulhosamente vestido com a camisola do Benfica da temporada 2023/24. Ao fazer previsões para o próximo jogo, ele aposta em "2-0", com gols de "Ivanovic e um autogolo". Contudo, sua confiança diminui ao pensar na próxima temporada: "É mais complicado, começámos mais tarde. O Sporting está a trabalhar muito bem e o FC Porto está em reestruturação", analisa.

A menos de três quilómetros da mercearia de Fábio e Sofia, encontramos outro espaço que celebra o cotidiano português: o Churrasco Cruz, um projeto de vida de Fernanda. O sonho de gerir um restaurante foi interrompido em 2008, quando problemas familiares a forçaram a emigrar para Nice. Antes, ela era técnica de qualidade em Vila Nova de Cerveira, mas aceitou um emprego como empregada de limpeza, uma transição difícil.

Em 2013, Fernanda e seu marido criaram um negócio de remodelações que se expandiu para Portugal em 2024. Nove anos depois, com maior conforto financeiro, Fernanda realizou seu sonho: "Sempre disse que gostaria de abrir um restaurante, é a minha paixão, gosto muito de cozinhar." O menu e os pratos portugueses, os tradicionais galos de Barcelos em cada mesa e a bandeira portuguesa que saúda cada cliente à entrada refletem seu amor pelo país que nunca deixou de ser sua casa. E que poderá voltar a sê-lo em breve.

"Já tenho uma certa idade, quero ir embora para ajudar o meu marido e a minha filha que estão em Portugal desde que abrimos a empresa de remodelações há um ano. Gostaria de vender este espaço a portugueses", diz Fernanda, dividida entre o sonho e a saudade da família. Cada convívio na churrasqueira para assistir a jogos de clubes portugueses e da Seleção Nacional aquece o coração da empresária minhota, que guarda com carinho as visitas dos adeptos encarnados na temporada passada: "São uns amores, fizeram uma festa muito grande. Os portugueses, assim que sabem que está passando um jogo na televisão…"

Essas histórias distintas têm um denominador comum: a luta por uma vida e um futuro melhor, uma ética de trabalho exemplar e o desejo de celebrar, sempre que possível, Portugal. Hoje é um dia de festa.

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