Reflexões sobre a Formação de Jogadores em Portugal
Na sexta-feira passada, as crianças acordaram animadas, falando sobre o jogo. Na véspera, passaram a noite pintando cartazes de apoio ao Sporting e assistindo a vídeos de antigos dérbis. Para criar o espírito adequado, conversei com eles sobre o icônico 7-1, mencionei os cinco violinos, Manuel Fernandes, Iordanov e até László Boloni. Quando chegou a hora de dormir, João pediu que cada um fizesse uma previsão do resultado. A deles, cheia de fé, ficou bem distante da realidade, enquanto a minha, mais racional, revelou-se acertada.
Voltando ao dia do jogo, a excitação das crianças foi contagiante. Acabei me pegando em um frenesim, apressando o banho da bebê para me acomodar no sofá alguns minutos antes do apito inicial.
Entretanto, a expectativa logo se transformou em desilusão, pois o jogo foi um dos mais fracos que já vi entre as duas equipes. Alguns podem argumentar que, ao menos, houve dois gols. Contudo, mesmo os gols refletiram a pobreza do que se passava em campo, sendo ambos verdadeiros lamentos. Com o entusiasmo quase extinto — e só não digo totalmente porque sempre há uma esperança que nos faz resistir —, comecei a me concentrar em outros aspectos do jogo, como o número de jogadores portugueses em campo.
No time da casa, apenas António Silva estava no onze inicial, com Manu Silva entrando já no final do jogo. Isso é relevante, pois a equipe conta com nove jogadores na Seleção Nacional sub-17, que recentemente se sagrou campeã do mundo. Por outro lado, no Sporting, as contas foram melhores: Rui Silva, Gonçalo Inácio, Francisco Trincão e Pedro Gonçalves iniciaram a partida, com João Simões e Giovanni Quenda entrando, totalizando seis jogadores portugueses utilizados.
Ao analisar esses números e outros jogos, confesso que tenho dificuldade em entender por que não adotamos estratégias que protejam os jogadores portugueses e o investimento na formação. A criação de uma quota mínima de jogadores portugueses ou formados em Portugal seria extremamente benéfica para clubes, jogadores e a Federação. Para os clubes, a aposta em jogadores locais reduziria despesas com contratações. Para os jogadores, mais visibilidade e tempo em campo significariam mais oportunidades de se valorizarem e alcançarem o mais alto nível, o que, por sua vez, aumentaria os rendimentos dos clubes em futuras transferências.
Para a Federação, essa medida criaria uma base de recrutamento mais sólida para as seleções. Com mais jogadores portugueses atuando regularmente, haveria um aumento nas opções para os selecionadores e, possivelmente, uma elevação na qualidade, uma vez que um ambiente competitivo interno elevaria o nível técnico e tático dos atletas.
Um modelo que poderíamos replicar é o da Premier League na Inglaterra, que exige que todas as equipes tenham uma quota mínima de oito jogadores formados localmente a cada 25 jogadores. Esses jogadores, conhecidos como 'homegrown', são aqueles formados em clubes da Inglaterra ou País de Gales por um período mínimo de três anos entre os 15 e 21 anos. Essa medida não é discriminatória, pois se baseia na formação e não na nacionalidade, sendo uma proteção à formação e um incentivo para os clubes investirem em jovens talentos.
Em Portugal, é comum que os clubes optem por contratar jogadores formados no exterior, que já chegam prontos, em vez de apostarem nos talentos da sua própria formação. Isso é lamentável e resulta em muitos casos em que o potencial de certos jogadores nunca é plenamente explorado, pois os clubes preferem buscar alternativas já prontas no mercado externo.
Vale lembrar que essa estratégia dos clubes não é isenta de custos. Embora não existam dados claros, gostaria de saber quanto os clubes portugueses já gastaram em jogadores estrangeiros que se revelaram fracassos, quando poderiam ter apostado em talentos internos. Um exemplo claro de contratações milionárias falhadas inclui David Carmo, pelo qual o FC Porto pagou €20 milhões, Raúl de Tomás, que custou ao Benfica €20,8 milhões, e Pongolle, que custou ao Sporting €6,5 milhões.
Retornando ao exemplo da Seleção sub-17, quero ver quantos dos nove jovens da formação do Benfica chegarão à equipe principal nos próximos anos e contribuirão para conquistas. Como já mencionei anteriormente, de nada adianta nos gabarmos de ter a melhor formação do mundo se os talentos que formamos são subutilizados ou acabam enriquecendo clubes estrangeiros antes de contribuírem efetivamente para o sucesso onde foram formados.
Por fim, é importante destacar que defender uma quota mínima de jogadores portugueses ou formados em Portugal não implica desvalorização dos atletas estrangeiros. O futebol português sempre teve e continuará a ter espaço para a diversidade. A questão aqui é garantir condições justas para que o talento nacional, formado em nossos clubes e academias, tenha uma verdadeira oportunidade de crescer e competir. Promover o jogador português não é excluir ninguém; é simplesmente fortalecer o futuro.